Carreira de escritor: não corra sua maratona literária como se fossem cem metros rasos



A profissão de escritor ou escritora costuma ser longeva. Se não levarmos em conta o trabalho de anotação e digitação, ela é uma atividade totalmente intelectual; não exige agilidade ou vigor físico e - caso consiga manter sua mente saudável - um escritor pode produzir obras ininterruptamente até os noventa anos de idade ou mais. Parece um exagero, mas com a evolução da medicina, a melhora na alimentação, a prática de atividades físicas e o corte de vícios, não é raro encontrarmos inúmeras pessoas que continuam dedicando-se às suas atividades profissionais por quase toda a vida.

Se levarmos em conta que a maioria das pessoas que sonha em viver da sua imaginação começa a escrever ainda na adolescência, então a carreira de um escritor pode facilmente durar mais de cinquenta anos, chegando até mesmo a setenta anos, em alguns casos. E, mesmo que você tenha começado a escrever, com o propósito firme de ingressar no mercado literário, somente depois sessenta anos, ainda é perfeitamente possível planejar a escrita de suas obras para o longo prazo, para mais vinte ou trinta anos de vida - desde que haja, é claro, um comprometimento sério com a sua saúde.

No momento em que escrevo, estou nos idos da década dos meus trinta anos. Há cerca de apenas 3 anos venci meu primeiro concurso literário. No ano passado publiquei meu primeiro E-book de contos e estou lançando agora meu primeiro romance, ambos através da auto-publicação em redes sociais e livrarias virtuais, como Wattpad e Amazon. Por quinze ou vinte anos fiquei tentando me descobrir como pessoa e como profissional. A paixão pela criação literária, pela imaginação e pela escrita despertou quando ainda frequentava os bancos escolares. E tornou-se evidente quando comecei a ler os clássicos, por volta da mesma época em que iniciei meus primeiros cursos universitários (sim, eu iniciei vários, mas concluí apenas um, também depois dos 30).

Porém, nos meus 20 anos eu não me conhecia tão bem quanto me conheço hoje. Muitas pessoas conseguem despertar cedo na vida e descobrem logo o que querem fazer, traçando o melhor caminho para chegarem onde planejaram, seja como profissionais, seja como seres humanos. Eu já tinha a paixão pela escrita, porém não tinha essa clareza necessária de que eu queria - ou melhor, precisava - ser escritor, de qualquer jeito. E também não conhecia ainda algumas ferramentas essenciais para me tornar um escritor habilidoso e cativante, como estrutura de uma narrativa longa, ou métodos de estimulação, organização e armazenamento de idéias. Portanto, eu também não tinha o comprometimento necessário, pois não sabia exatamente onde nem como chegar lá. 

Para quem não sabe onde vai, qualquer caminho serve. E desta forma fui andando em minha vida, ora empurrando, ora sendo empurrado. Entretanto, após várias idas e vindas, e depois que consegui silenciar todo o barulho ao meu redor e ouvir o meu chamado interno para ser escritor - não qualquer um, mas um excelente escritor profissional  - eu pude também começar a dar valor ao tempo. Não apenas por estar inerentemente ligado a maior jóia que temos, que é estarmos vivos com boa saúde e plena capacidade de perseguir nossos sonhos, mas também por perceber que, com o passar inexorável dos anos, o tempo torna-se um bem cada vez mais escasso.

Nessa minha jornada de autodescoberta como escritor, eu também tenho uma vida pessoal, familiar e preciso pagar contas, então - como a maior parte dos escritores profissionais em início de carreira - eu preciso conciliar o tempo escasso que tenho com a administração de um emprego normal, uma casa normal, uma família normal e problemas normais. Naturalmente, percebi que estava sofrendo de uma certa ansiedade, porque acreditava que eu tinha que fazer da minha carreira de escritor o meu principal sustento financeiro o mais rápido possível.

Eu já sabia disso, mas hoje percebo com mais nitidez que as coisas não funcionam depressa na carreira de escritor. Para tornar-se um profissional da literatura bem sucedido comercialmente é preciso muita dedicação e paciência - geralmente por mais de dez ou vinte anos de tentativas, erros e insistências. É mais ou menos como o advogado: não existe salário, então provavelmente você só vai conseguir se sustentar apenas com essa profissão depois de muitos anos de tombos e algumas vitórias.

Podemos usar também a metáfora da corrida: não adianta querer correr a maratona - que tem 42 Km de extensão - como se fosse a corrida dos 100 metros rasos. Para correr apenas cem metros, entregamos toda nossa energia e explosão de força já na largada, e mantemos o ritmo insano até o final. Em um curto espaço, os campeões vencem nos mínimos detalhes. 

Todavia, a carreira de escritor assemelha-se mais ao percurso de uma longa distância, em que vários competidores irão ficar pelo caminho, caídos no chão, sob o sol escaldante, com sede, desmaiando e os pés cheios de feridas - sobretudo se quiserem correr feito loucos logo no início. Aqueles que conseguirem manter um ritmo firme, seguro, resiliente e adequado até o final serão bem sucedidos.

Portanto, penso que devemos ter pressa, sim, para iniciarmos nossa carreira de escritores profissionais. Devemos agir, pensar e atuar como profissionais da literatura desde o início, lendo muito, escrevendo mais ainda, buscando novas técnicas e cursos, aprendendo marketing, cuidando da mente e do corpo, etc. Mas não deveríamos ter pressa de alcançar o sucesso. A não ser que escrever seja para você apenas uma forma de ganhar um dinheiro extra - e acho difícil que isso funcione, pois a falta de paixão compromete o seu texto - eu acredito que o sucesso é uma consequência inevitável, no longo prazo, para todos aqueles escritores produzem material de qualidade e dedicam-se de corpo e alma às suas obras. Confie no tempo, pois ele também confia em você.

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