Não escreva apenas para agradar, mas também para inovar!



Quando você é um escritor ou escritora, uma das grandes questões teóricas a respeito da profissão diz respeito a compreender qual a verdadeira razão de existir do texto? O texto literário é uma obra de arte independente do público ou pode ser visto como um objeto de consumo à venda no mercado? A narrativa é obra do gênio artístico e não pode ser moldada por exigências comerciais, ou os leitores são também consumidores de bons produtos literários e precisam receber obras adequadas ao seu perfil? O que vale mais: o talento e a expressividade do escritor-artista ou a capacidade do operário das letras de entregar um conteúdo pré-moldado ao público-alvo?

Eu penso que essa é uma questão muito delicada, que envolve, de um lado, a personalidade e a criatividade de uma pessoa que tem sua arte a oferecer para o mundo e - de outro lado - envolve as necessidades de rendimento financeiro e reconhecimento do público, algo que todo artista deseja ou necessita. O que é mais importante? Não é simples chegar a uma solução perfeita para esse problema, e acredito que a resposta se aproxima do famoso “depende”.

Depende porque isso tudo não pode ser pensado de forma absoluta, rígida, empacotada em dualismos e pensamentos binários, do tipo “ou” isso “ou” aquilo. Não é bem assim. Cada caso tem suas especificidades, e cada ser humano é único. O que pode ser perfeitamente aceitável para mim, pode não ser para você. E ainda temos o fator tempo: o que pode ser bom para mim hoje, pode não ser amanhã.

Mas falando de hoje, eu me coloco em um meio termo. Não sou a favor de investir meu tempo e meus esforços, por exemplo, em uma escrita literária que se aproxima muito da prosa poética; que seja muito pessoal, vaga, nebulosa ou imprecisa, pois esse tipo de narrativa, que não possui uma estrutura minimamente adequada, praticamente também não possui nenhum apelo comercial. Por outro lado, também não gosto da ideia de escrever romances produzidos na esteira de uma fábrica, como genéricos de Harry Potter, Crepúsculo ou Senhor dos Anéis, apenas “porque vendem”.

Acredito no equilíbrio entre as duas opções, entre as duas maneiras de fazer escrita: uma voltada quase exclusivamente para o 'mercado' literário; outra quase exclusivamente para a 'arte' literária. Talvez seja preciso escrever em um certo padrão - afinal quem não gosta de comprar um livro, seja no sebo ou na Amazon, e perceber que acabou envolvido uma história bem amarrada e bem contada? Mas não é sempre necessário ficar engessado às formas. Também podemos criar, ao mesmo tempo, histórias incríveis com estruturas narrativas consagradas pelo mercado e que tenham sua própria alma; que sejam originais e apreciadas por lançar um novo estilo ou padrão.

É claro que nem todos os artistas, sejam da literatura ou não, serão os novos Dostoiévski, os novos Van Gogh, muito menos os novos Leonardo da Vinci. Nem todos serão gênios que irão romper com os padrões vigentes e serão lembrados por séculos, dialogando com inúmeras gerações de leitores e apreciadores de suas obras de arte. A cada cem pretensos gênios da arte, apenas um ou dois sobrevivem tempo o suficiente nas livrarias, ou nas galerias, para ser lembrado como alguém digno de nota.

Mas também nem todos aqueles que escrevem apenas para agradar os outros - seja o público-alvo definido em uma estratégia de marketing pré-concebida, seja a editora ávida por abastecer suas prateleiras com produtos 'mais do mesmo', que se adequam ao gênero literário mais 'hype' do momento - enfim, nem mesmo esses escritores terão sucesso comercial garantido. Muitos poderão vender razoavelmente por algum período, mas acredito que a maioria deles - se não tiver nada de original a oferecer ao mundo, se não tiver um valor artístico inesquecível para legar aos consumidores dos próximos cem ou duzentos anos - cairá na vala comum da obsolescência programada da literatura puramente comercial.

Portanto, é importante que nós, quer sejamos escritores-artistas ou operários das letras, saibamos encontrar um bom termo, o caminho do meio entre a manutenção de nossa obra literária - de forma fiel e intacta aos nossos instintos mais pessoais, e a adequação do nosso produto ao desejo do mercado editorial. Por exemplo, por que não trocar os poemas, a prosa poética e os contos por um romance bem formatado em uma jornada do herói? E por que não utilizar o padrão da narrativa do herói para contar uma história original, que irá encantar as pessoas por sua inovação artística? Eu quero ser um escritor bem sucedido - e isto significa aliar o melhor desses dois mundos: o da arte e o do comércio. E você, que tipo de escritor deseja ser?

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