Todo escritor deveria subir o Monte Everest



O Monte Everest está localizado na fronteira entre a China e o Nepal, na Cordilheira do Himalaia, a 8848 metros de altitude. É a maior montanha do Planeta Terra e só foi oficialmente escalada até o seu topo nos anos 1950. Lá o ar é extremamente rarefeito, as temperaturas congelantes, o vento impiedoso, o terreno acidentado e escorregadio, e o perigo de avalanches é constante. Centenas de pessoas já morreram tentando alcançá-lo até o fim. 

Ao mesmo tempo, ele é um cume lindo e resplandecente acima de todos os outros, onde a neve dorme eternamente e onde o pôr-do-sol reflete como em nenhum outro lugar, em tons de cores fantásticos. Lá você se sente no topo do mundo, acima de tudo: com exceção dos aviões e veículos espaciais, toda a vida do planeta ocorre abaixo de você. Além disto, no topo do Monte Everest você está acima de si mesmo - pois chegar lá exigiu enormes sacrifícios pessoais, que só você viveu e sabe o quanto significam.

Essa montanha adquiriu um aspecto tão lendário e místico que, em alguns dicionários, a palavra Everest ganhou um significado especial, no sentido do desenvolvimento pessoal e profissional. Everest é sinônimo de “a grande meta da sua vida; aquela que possui muitos obstáculos no caminho mas, quando alcançada, a recompensa é a maior de todas”. Realmente, é difícil encontrar uma metáfora mais apropriada para os maiores desafios do que, simplesmente, Everest.

Acredito profundamente que todos nós deveríamos ter um Everest a ser conquistado em nossas vidas. Não no sentido literal do termo - não estou propondo que você compre passagens para Catmandu e faça um curso de alpinismo, até porque sairia bem caro para o seu bolso. Mas você deveria ter o seu próprio Everest pessoal, a sua grande meta; aquela que fará você passar por grandes riscos, sejam de que natureza forem. Entretanto serão riscos calculados, planejados, e que o farão mover-se sempre adiante - sempre com mais motivação e produtividade.

Parafraseando um dos ensinamentos do empresário e escritor Roberto Tranjan, para termos mais clareza, devemos saber diferenciar o que é missão daquilo que é meta. Por exemplo: a missão de Maria é ser a melhor engenheira mecânica do país. Para chegar lá, sua meta é concluir o doutorado, passar mais um ano estudando na Alemanha, continuar fazendo cursos e frequentando palestras e alcançar a vaga de emprego mais bem remunerada na indústria automobilística, em um prazo de 5 anos.

Outro exemplo: a missão de João é ser um marido exemplar. Para isso, sua meta é dedicar mais tempo e atenção à sua família, levantando às 7h, lavando a louça todo dia, limpando o chão 3 vezes por semana, indo ao mercado uma vez por semana, frequentando a academia 5 vezes por semana, desligando redes sociais e aumentando o interesse romântico em sua esposa - tudo isso com disposição e bom humor, num prazo de 1 ano. A missão é o seu propósito de vida; algo mais abstrato, ligado a uma ideia, uma qualidade. Já a meta são os passos necessários para chegar lá; está mais ligado a números, a quantidade.

Num sentido literal de montanhismo, comparando com o Monte Everest, seria como se a missão de alguém fosse estar entre os cinco maiores alpinistas do mundo; neste caso, subir o Monte Everest seria a sua meta pessoal/profissional mais elevada - aquela que lhe levaria com mais rapidez e profundidade ao novo status desejado. Assim é a vida: é preciso se desafiar para realizar a sua missão, alcançando metas de longo prazo, seja para ser um bom alpinista, um bom encanador ou um bom escritor.

Pessoalmente, posso dizer o seguinte: a minha missão de vida é ser um escritor profissional excelente e bem sucedido de ficção especulativa, reconhecido mundialmente como um dos melhores da minha geração. Parece ambicioso? Então espere até ler a minha meta: o meu Everest é escrever e publicar 30 romances em 30 anos. Fazendo essas contas difíceis, para quem veio da área de Ciências Humanas, isso dá algo em torno de 1 livro por ano.

Pode parecer uma meta plenamente realizável - e de fato é. Mas, do meu ponto de vista, é um Monte Everest a ser conquistado. Tenho que alcançar isso mantendo minha família unida e feliz; mantendo meu emprego (pelo menos no início, até minhas obras gerarem renda suficiente); mantendo este blog (onde compartilho valor com as pessoas) e, também, mantendo minha saúde, minha forma física e mental. Para isso funcionar adequadamente, tenho que passar por uma série de desafios e esforços pessoais como, por exemplo, acordar todos os dias às 5h da manhã, ou até antes -  e só poder voltar a dormir, inúmeras vezes, à meia-noite ou mais tarde. Pelo menos enquanto eu não puder ter dedicação profissional exclusiva ao trabalho de escritor, precisarei manter horários mais radicais que o comum. Mas, em relação aos meus hábitos, como um todo, eles sempre terão que ser diferentes do normal - ou não será possível cumprir minha meta, nem realizar minha missão.

30 livros em 30 anos: esta é a minha meta, esse é o preço a ser pago pelo meu sonho, pela minha missão de vida. Esse é o meu Everest, e estou disposto a atacar o seu cume. Todavia, eu o escalo com enorme alegria e satisfação, mesmo correndo inúmeros perigos no caminho, pois sei - e só eu sei - o que ele significa de verdade para mim. É através dele, dessa meta, dessa montanha (a maior e mais difícil de minha vida) que alcançarei o topo da vida, o último degrau que estabeleci para mim mesmo. Lá em cima, contemplando o universo e a natureza do ponto mais alto em que podem ser admirados, eu e o infinito seremos como um só. Eu terei vencido.

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