Como o noticiário prejudica o trabalho de um escritor?



Eu sou um filho dos anos 1980. Eu cresci solitário, assistindo televisão. Ela era a nossa babá eletrônica. Não era nada mau, na verdade, passar a infância e a adolescência assistindo toda aquela programação linear, agora obsoleta, de cedo à noite. Aquele formato de consumo de mídia estava em seu auge, imediatamente antes do surgimento da internet. O mundo estava ali, quadrado, diante dos seus olhos. O que a tevê dizia, era lei. Principalmente os noticiários.

E depois também havia o jornal impresso, que carregava consigo uma aura intocada de verdade, de sabedoria, de cultura em forma de papel. Inúmeras banalidades e bizarrices, mas também a opinião supostamente balizada de inúmeros cronistas, sobre os mais variados assuntos. Durante muitos anos fui motivado, pela minha vocação para a escrita, mas também pela existência dos jornais, a cursar uma graduação em jornalismo - que acabou não se concretizando. 

Com a chegada da internet vieram os portais de notícias e entretenimento. As versões em português dos jornais mais consagrados no mundo inteiro. Artigos do mais fino acabamento. Fofocas da mais vulgar estirpe. Tudo lado a lado. Horas e horas da sua atenção perdidas em algo completamente inútil

É possível que a informação e a opinião sobre os assuntos do cotidiano, da cidade e do mundo, possam tornar alguém mais erudito? Até pode ser, em alguma medida. Mas, no geral, o que o consumo de notícias faz é apenas viciar e acrescentar uma bagagem de conteúdo destrutivo para a sua mentalidade. Sim, porque uma pessoa que passa 20, 40 ou 60 anos consumindo tragédias, picuinhas e negatividade diariamente sofrerá um impacto psicológico terrível em sua personalidade.

Hoje olho para trás e agradeço por não ter me encaminhado para o jornalismo, porque tenho uma visão bem diferente daquela, muito glamourosa, que eu tinha no passado. Teria sido uma profissão bem interessante de ser exercida - mas puramente pelo exercício da criatividade e da técnica de escrita, da arte de contar histórias e escrever bem. Porque, em larga escala, o conteúdo que o jornalismo entrega para a sociedade, e o valor que ele gera para as pessoas, é bem questionável. 

O trabalho exercido pelos profissionais jornalistas é sério e comprometido, mas o conteúdo do jornalismo, na maioria das vezes, deixa a desejar. Faz parte, não é mesmo? É o que a massa quer ler e ouvir, e é para isso que o mercado remunera esses dignos profissionais. Sem nenhum sarcasmo aqui.

Mas bem, o que quero dizer não é nada contra os jornalistas, os quais continuo respeitando e admirando - fiz vários colegas e um grande amigo que estudam ou trabalham nesta área do conhecimento. O que quero dizer é simples: se você quer ser um escritor - um escritor profissional sério, um escritor produtivo e excelente - você deveria parar de ver seu tempo escorrer entre os dedos enquanto consome televisão, jornal impresso ou portais de notícias.

Imagine quanto tempo perdido, quantas horas do seu dia ou da sua semana são desviados da sua arte, do seu ofício, do seu sonho de se tornar escritor, de criar suas próprias histórias, seus contos, seus romances? Quando você desvia seu foco para dar uma lida nas últimas notícias esportivas, facilmente se vão 30 minutos, 60 minutos… Ou mais. E, neste período, você poderia ter estruturado seu projeto para aquele romance guardado na gaveta, ou quem sabe tivesse escrito 5, ou talvez 10 páginas do seu trabalho literário.

Essa regrinha vale para praticamente todas as distrações fúteis, redes sociais, etc. Mas aqui o noticiário merece esta menção particular, porque costuma estar disfarçado sob uma aura de relevância cultural que, na minha modesta opinião, não condiz com a realidade. Até porque o efeito dele sobre a mente das pessoas costuma ser nefasto. Como a maioria das notícias são de cunho negativo, o pensamento e o caráter de quem assiste ou lê o noticiário diariamente também é degradante. E, se você quer se tornar um escritor profissional confiante, além de ter uma vida próspera e saudável, acompanhar o noticiário não vai te ajudar em nada.

Abro uma exceção apenas, e talvez, para as reportagens e documentários, porque sei que muitos são de ótima qualidade e aprofundam o conhecimento sobre o mundo em níveis que o noticiário do dia a dia não permite. Vide o nosso saudoso e querido jornalista Goulart de Andrade.

Mas então, da próxima vez que você pensar em abrir o site da Globo, a Gazeta, o UOL ou o El País - apenas para relaxar e descontrair um pouco - pense na soma de todos esses pequenos períodos em que você lê, vê e consome notícias. Parece um tempo pequeno, a princípio, mas você verá o quanto esse tempo torna-se gigantesco ao longo de vários anos, e o quanto você estará mais próximo de realizar seu sonho de viver da sua imaginação se apenas deixar de lado as pequenas distrações com notícias em seu dia a dia.

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